[Istoé Dinheiro] A encruzilhada da China

Share on facebook
Share on linkedin
Share on pinterest
Share on twitter
Share on telegram
Share on whatsapp
Share on email
Share on print

Por Jaqueline Mendes, Istoé em 20/05/2022

Fechamento de algumas das maiores cidades chinesas tem afetado a cadeia global de suprimentos e alimentado a alta de preços por todo o mundo.

A pandemia pode estar minimamente controlada, mas os reflexos econômicos da Covid-19 ainda se proliferam mundo afora, inclusive no Brasil. E um desses efeitos colaterais surge cada vez que a China, o pátio fabril do mundo, fecha as portas para se proteger do vírus. Com lockdowns rigorosos desde 1º de abril, a política Covid Zero implementada pelo governo de Xi Jinping determinou o fechamento de fábricas, cidades, portos e aeroportos. Resultado: desabastecimento da cadeia global de suprimentos e alta generalizada dos preços.

Imagem: Kevin Frayer

Os números confirmam esse tsunâmi inflacionário. Um levantamento da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) constatou que, em abril, os preços das importações em dólares subiram 34,4%, mas houve recuo de 6,9% em volume. Ou seja, quem consegue importar está pagando mais. A tendência para os próximos dois meses é de alta acima de 10%, com o prolongamento da guerra na Ucrânia e com o descompasso entre oferta e demanda. O presidente da AEB, José Augusto de Castro, disse que a inflação que vem de fora é mais uma adversididade que a indústria brasileira vive. “Os preços já tinham aumentado 29,5% em março.”

E se o lockdown chinês parece uma situação distante e preocupação apenas de empresários nas gôndolas, o consumidor também já paga o preço. Prova disso é que as famílias de renda mais baixa foram as que mais sentiram o aumento dos produtos nas prateleiras em abril. A alta de preços foi de 1,06%, contra um resultado de 1% na faixa de renda mais alta, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

“Enquanto a elevação dos preços dos alimentos foi o principal fator de pressão inflacionária para as rendas mais baixas, para as mais altas os aumentos do grupo transporte pesou mais”, disse a economista Maria Andreia Parente Lameiras, autora da Carta de Conjuntura do Ipea.

No acumulado em 12 meses, a inflação percebida pelo grupo de renda muito baixa foi 17,6% maior do que a sentida pela alta renda, segundo o Indicador Ipea de Inflação por Faixa de Renda. No grupo de renda muito baixa, a inflação acumulada nos 12 meses terminados em abril foi de 12,7%, enquanto que entre as famílias de renda alta essa variação foi de 10,8%.

E não há sinais de melhora em curto prazo. Para o economista Lívio Ribeiro, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), a combinação dos novos lockdowns na China com estragos provocados pela guerra entre Ucrânia e Rússia deve levar a um mundo com inflação mais elevada por mais tempo. “Se antes a gente tinha dúvidas de que o processo de reorganização das cadeias produtivas se completaria este ano, hoje parece muito improvável que isso ocorra.”

Para o economista-chefe da Messem Investimentos, Gustavo Bertotti, a inflação global vai piorar antes de começar a melhorar. Isso porque, segundo ele, o déficit comercial da União Europeia (UE) é um sinal de alerta para a inflação global. “Como a Europa depende da importação de gás da Rússia, e não existe outra alternativa por enquanto, a tendência é um aumento de preços e isso leva a uma alta generalizada de preços”, afirmou. Com ou sem vírus, o lockdown na China segue contaminando de inflação do Brasil e do mundo.

Leia a matéria original em Istoé.

VEJA TAMBÉM: