Artigos AEB

30/09/2013
por Mauro Laviola

Enquanto seu país não retorna de fato ao Mercosul, o novo presidente paraguaio Horacio Cartes realiza visitas e promove encontros para mostrar aos vizinhos próximos que o Paraguai, sob sua gestão, revela-se uma promessa de bons negócios. Sua visão de empresário, com única restrição à Venezuela, pretende mostrar a grande vantagem comparativa que sua legislação oferece para as grandes e médias corporações fabricarem bens industrializados com preços ultra competitivos. Sua mais nova investida é no Chile, um dos integrantes da Aliança do Pacífico e da qual o Paraguai é observador. Seu objetivo é avançar num acordo de cooperação técnica para estabelecer uma zona de livre comércio no porto de Antofogasta, abrindo as portas do Paraguai ao Leste Asiático com comércio de mão dupla, e facilitar o escoamento dos bens que vierem a ser produzidos em seu território. Parece que o novo dirigente do país está pensando em vôos solo.

Institucionalmente, contudo, permanecem latentes as divergências que emperram esse retorno. Os paraguaios insistem na tese de que, desde julho de 20102, quando foi suspenso temporariamente do bloco, foi violado um dos princípios fundamentais do Tratado de Assunção porque o ingresso da Venezuela não foi unânime entre os sócios. Sua efetiva adesão dependerá de uma votação favorável do novo Congresso paraguaio. Não obstante, seu novo mandatário admite o reingresso do país em 2014 quando a Venezuela deixar presidência pro tempore do organismo. Penso estar faltando alguma peça importante nessa engrenagem.

É no mínimo insólito o fato ocorrido semanas atrás, em Montevidéu, quando reuniu-se a comissão diretora do Parlamento do Mercosul, na qual a Venezuela não se fez presente com seus delegados, propiciando a participação de representantes paraguaios e permitindo a reativação desse organismo - aliás, não se sabe bem qual sua função num clube em que as decisões são adotadas fundamentalmente pelos respectivos poderes executivos.

Sabe-se que o Paraguai irá participar da rodadea de negociações Mercosul - União Européia, neste último trimestre, mesmo sem ter voltado oficialmente ao bloco. Assim, vivendo de contradições em escala progressiva, não se pode registrar qualquer avanço no Mercosul, esse aglomerado quase disforme e que tende a se complicar ainda mais com adesões de mais países.

Outro dia ouvi, estarrecido, um representante oficial brasileiro tecer rasgados elogios ao Mercosul por seu dinamismo comercial, tomando como exemplo a pujança do setor automotriz. Este setor, juntamente com o complexo açúcar, está fora bloco, uma vez que o comércio de veículos, partes e peças existente entre Brasil, Argentina e Uruguai se faz por regras estabelecidas em acordos bilaterais no âmbito da Aladi.

Diz-se que há contradição quando se afirma e se nega simultaneamente algo sobre a mesma coisa. O Mercosul, atualmente, exprime bem este conceito.